AMEAÇA: Peixe símbolo em risco de extinção

Pacu está prestes a desaparecer dos rios pantaneiros e pode incluir lista de 135 pescados sob risco de sumir no País

“Quem come cabe√ßa de pacu n√£o sai mais daqui”. √Č o que se dizia antigamente quando as pessoas vinham morar em Cuiab√°. O pacu sempre foi um dos peixes mais saboreados pelos cuiabanos e facilmente fisgado nos rios da bacia do Alto Paraguai (BAP). Robusto, gordo na √©poca da cheia e relativamente grande, o pacu (Piaractus mesopotamicus) est√° prestes a desaparecer dos rios pantaneiros e pode ser mais um dos 135 peixes de √°gua doce sob risco de sumir no Pa√≠s, registrados no livro vermelho de esp√©cies amea√ßadas de extin√ß√£o.

Para o ictiólogo Francisco Machado, o tempo para acontecer isso é de mais ou menos dez anos. Triste destino não só para o pacu, como também para as espécies migradoras das bacias hidrográficas brasileiras.

Os barramentos de grandes e pequenas hidrel√©tricas, o aumento de pescadores amadores e profissionais e a soltura de esp√©cies de peixes criados em laborat√≥rio, chamados de “h√≠bridos” s√£o algumas quest√Ķes preocupantes. Para muitos pesquisadores, a cria√ß√£o dessas esp√©cies em cativeiro (piscicultura) tem sido uma alternativa para a pequena propriedade e at√© mesmo para comunidades ribeirinhas que j√° n√£o tem mais √† disposi√ß√£o quantidades grandes de peixes naturais, mas √© uma amea√ßa concreta, uma “contamina√ß√£o gen√©tica” da fauna de peixes brasileira. Em tanques ou pesqueiros, muitas vezes instalados pr√≥ximos de pequenos c√≥rregos e rios, escapam para a natureza, concorrendo com as esp√©cies selvagens e originando desequil√≠brios ecol√≥gicos.

Francisco Machado lembra que a soltura de alevinos vem sendo feita no rio Cuiab√° h√° mais de quinze anos sem qualidade gen√©tica. “O caminho do cativeiro para a natureza acaba levando doen√ßas e causa corros√£o gen√©tica nas popula√ß√Ķes. Isto est√° acontecendo e por isso foi necess√°rio alertar o Minist√©rio P√ļblico Estadual que tem notificado as pessoas que insistem na pr√°tica de soltura de alevinos nos rios da bacia pantaneira”, comentou. Machado explica que a produ√ß√£o de alevinos de pacu √© cara e n√£o tem certifica√ß√£o de pureza, “portanto o que est√£o soltando s√£o principalmente alevinos de tambac√ļ, reduzindo assim cada vez mais o n√ļmero de indiv√≠duos de pacu original da bacia. A soltura de alevinos deve ocorrer em ba√≠as e corixos do Pantanal e n√£o nos rios e os alevinos precisam ter mais de 15 cm. L√° os jovenzinhos v√£o sofrer processos de sele√ß√£o natural e os adultos ser√£o mais robustos geneticamente”, alerta.

Entre as causas do fim do pacu, tem sido evidente os males causados pelas 29 barragens em operação (7 usinas hidrelétricas, 16 pequenas centrais hidrelétricas e 6 mini hidrelétricas) distribuídas pela BAP (Manso, Itiquira, Correntes e no São Lourenço).

Além de desequilibrar os pulsos de cheias e secas anuais e interanuais que regem o funcionamento ecológico do sistema Pantanal, os barramentos são construídos nas cabeceiras como é o caso da Usina de Manso e em corredeiras e pontos de cachoeiras dos rios, locais preferidos dos peixes quando sobem para se reproduzirem.

No caso da PCHs, Francisco Machado comenta que mesmo que sejam a fio d”√°gua, de reservat√≥rios bem pequenos e que tenham mecanismos de transposi√ß√£o de peixes, as barragens sempre ser√£o um empecilho para os peixes ainda bem pequenos, em forma de larvas. “Os peixes sobem pelas escadas, se reproduzem, mas ter√£o dificuldade para descer e seguir para as ba√≠as onde deveriam se tornar adultos. O que ocorre √© que estas larvas v√£o para o fundo e s√£o acometidas por doen√ßas ou viram comida para outros peixes maiores”. Machado √© enf√°tico ao afirmar que ainda n√£o se conseguiu comprovar que as escadas de peixes consigam permitir que eles tenham acesso livre √† vida ainda na inf√Ęncia.

Lista inclui 159 espécies
Segundo o livro “Os peixes Brasileiros Amea√ßados de Extin√ß√£o”, dos icti√≥logos Flavio Lima e Ricardo Rosa, ambos do Museu de Zoologia da Universidade de S√£o Paulo (USP) e pesquisadores visitantes ass√≠duos dos rios mato-grossenses, o estudo sistematizado da amea√ßa de extin√ß√£o de esp√©cies de peixes no Brasil teve in√≠cio em 1989, por iniciativa da Sociedade Brasileira de Zoologia.

Através de um processo de consulta ampla à comunidade científica, foi compilada uma lista que continha 78 espécies ameaçadas ou presumivelmente ameaçadas, das quais 11 eram marinhas (Rosa & Menezes, 1996).

Uma lista indicando dez espécies marinhas de Chondrichthyes ameaçadas no Brasil foi apresentada por Rosa (1997). A partir do processo de revisão da lista nacional da fauna ameaçada segundo os critérios da União Mundial para a Natureza (IUCN), novas consultas foram realizadas e outras espécies foram acrescidas à lista.

Ap√≥s a realiza√ß√£o de workshops e reuni√Ķes com representantes dos √≥rg√£os ambientais, a lista dos peixes foi oficializada em 21 de maio de 2004, atrav√©s da Instru√ß√£o Normativa 05 do Minist√©rio do Meio Ambiente, tal documento cont√©m 159 esp√©cies de peixes amea√ßadas (135 de √°gua doce e 24 marinhas) e um t√°xon e outras 36 esp√©cies classificadas como “sobre explotadas” ou “amea√ßadas”. (JS)

Da Assessoria

Esta entrada foi publicada em Meio Ambiente, Pesca. Adicione o link permanenteaos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>